quarta-feira, 18 de março de 2020

roller coaster

Isto ainda agora começou e já é uma montanha russa de emoções.

Alterno entre o medo gigante do que vem por aí e a certeza de que isto vai resolver-se mais depressa do que estava à espera.
Hoje acordei optimista e bem-disposta. Ter dormido bem ajuda pra caramba!
Já a Daniela está num stress. Porque tem trabalhos e não consegue aceder às plataformas que os professores usaram. Mas acima de tudo, porque é só um ser humano, e ainda em maturação, sem o conhecimento real de que, aconteça o que acontecer, de uma forma ou de outra, tudo acaba por se resolver.

Ontem, tal como tinha previsto, deu-me para as limpezas. Aquela casa de banho ficou a brilhar! Mas como foi tudo mesmo ao pormenor, a segunda casa de banho precisa hoje de uma mão: ficou a faltar lavar os azulejos, mas o resto, ficou também a brilhar :)

Com tanta limpeza, ontem acabou por não haver aula de dança. Mas hoje lá estaremos de novo, que o corpo e a mente precisam mesmo muito disso.

Estamos no final da manhã e estamos todos a trabalhar.

Os números de hoje acabaram de sair. 642 casos em Portugal, mais 42% do que ontem. è agora que isto começa a galgar.

Chegámos, entretanto, à conclusão que, muito provavelmente a minha sogra teve COVID-19. No início de Fevereiro esteve bastante doente: febre, muita tosse, falta de ar. O bicho anda aí há muito tempo. Quantos já terão sido infectados e ultrapassado a coisa? Dúvidas existenciais...

terça-feira, 17 de março de 2020

graças que perdem a graça

Sempre achei muita graça à expressão "parem o mundo que eu quero sair".

Acho graça a coisas muito estúpidas.

a vida não pode parar

Sim, eu sei. A vida já parou. Parou, mas não acabou.

Como dizia ontem, é preciso manter a cabeça a funcionar e o corpo a mexer. Arranjar rotinas, inventar soluções.

Cá por casa decidimos que o exercício tinha de acontecer. Às 18h15 haveria treino e era bom que ninguém faltasse. Eu e a Daniela "fomos" a uma aula de dança, que é como quem diz, vídeos Just Dance do You Tube. Uma hora a dar o litro, a dançar, a cantar, a divertirmo-nos. Vestidas a preceito, que se é para ser que seja a sério!

Já o Miguel "foi" a uma aula de Fitness. Saltar à corda, flexões, abdominais e pranchas. Os músculos têm de perceber que isto não pode parar. è que eles falam muito com o cérebro e depois dá asneira.

Ainda desafiei as miúdas do grupo para se juntarem em vídeo chamada. Ontem não tive sorte, mas vou continuar a tentar.

O tempo não tem colaborado e está uma ventania que leva tudo pelos ares, o que significa que não se pode estar no terraço. tenho esperança que amanhã melhore e possamos pôr o nariz de fora e fazer uma horas ao ar livre e apanhar um bocado de Sol.

O Miguel hoje ainda foi correr. No Jamor, uma ou outra pessoa que também não perde o foco. è aproveitar, que o estado de Emergência deve estar a chegar e depois não há nada para ninguém.

Não acordámos tão cedo como tinha previsto, mas tudo bem. A Daniela esteve em vídeo chamada com colegas a fazer um trabalho. Como é delegada de turma, é também a responsável por falar com os professores, receber os trabalhos e informações do que há a fazer e partilhar com os colegas. É bom que mantenham actividades e tarefas, dá alguma normalidade aos dias.

Eu estive a responder a um ou outro email e a navegar na internet. Acabando de escrever aqui, acho que me vou dedicar às limpezas. Preciso da sensação de segurança e conquista que temos quando olhamos para uma tarefa terminada com sucesso. Nem que a tarefa seja lavar casas de banho.

do que vem por aí

Ontem, comecei a panicar.
Deitei-me e parecia que não conseguia respirar. Pensei "raios, falta de ar! será que tenho a coisa?". E depois lembrei-me que o que eu tinha era um ataque de ansiedade.
Confesso que tentei tudo: respirações, meditações. Não resultou. Levantei-me e fui para a sala ler. Tomei um Valdispert e a coisa acalmou.
O meu maior medo não é o bicho em si. O meu maior medo é o que vem por aí enquanto isto não passa. Temo que os supermercados deixem de ter o que comprar. Temo que deixemos de ter o que comer.

Tento afastar estes medos da minha cabeça e enfrentar a coisa com bom-humor. Não há outra maneira.

Lembrei-me ontem do filme A Vida é Bela. A maior e mais bonita lição de vida de todos os tempos. Roberto Benigni interpreta o papel de um pai judeu, que se vê num campo de concentração nazi com o filho pequeno. Como só o amor é capaz, ele consegue que o filho acredite que tudo aquilo é um jogo e uma brincadeira. Seremos nós capazes de fazer o mesmo com os nossos filhos? Teremos a capacidade de levar os dias de forma descontraída e fazer das agruras, oportunidades?

Inspirar, expirar. Acreditar que há-de ficar tudo bem, ter fé e esperança que tudo isto passe mais depressa do que mais devagar. Disto se têm de fazer os dias.

segunda-feira, 16 de março de 2020

a guerra do silêncio

Carnaxide, 16 de março de 2020.

Este sim, é, em Portugal, o dia 1 para a maioria de nós.

Ontem era Domingo, e o Domingo não conta.
É certo que foi um Domingo diferente. Como foi um Sábado diferente. Desde 6ª feira, no momento em que entrámos em casa, que sabemos que agora é para ficar. Só não sabemos até quando. As escolas estão fechadas a partir de hoje e as empresas onde trabalhamos, eu e o Miguel, decidiram também fechar.

Sou, regra geral, uma pessoa optimista, que vê o copo sempre meio cheio, que acredita que amanhã vai ser melhor do que hoje e, se não poder ser melhor, será, pelo menos, igual. Tentarei manter este estado de espírito nos tempos que se avizinham, sabendo que o cansaço do confinamento me poderá derrubar em alguns momentos.

Apesar do optimismo, não tenho ilusões. Estamos todas a pensar que estaremos "duas semanas em casa".
Não.
Não estaremos duas semanas. Estaremos, no mínimo, dois meses. E dois meses é o meu lado positivo a falar.

O fim-de-semana viveu-se de forma diferente. O facto de se saber que sair, não sendo proibido, não é aconselhável, muda tudo.

Sábado de manhã ainda fomos os 3 à mata do Jamor fazer uma caminhada. Poucas pessoas e distantes, o risco é próximo do zero. O dia estava perfeito e o nosso terraço, sempre cheio de vento, estava calmo e com a temperatura certa. Aproveitei para começar a limpar. Arrancar as ervas que crescem entre azulejos e varrer o lixo que se acumula nos cantos. Tirar as ervas daninhas dos vasos e regar. Apanhar a dose diária de vitamina C. Começar a preparar o terraço para os tempos que aí vêm. Imagino que irei dar uso a este espaço muito mais do que nos últimos 14 anos e será este o momento em que agradeço a sua existência.

Para cima já trouxemos os skates e a bola de voilei. As bicicletas virão mais tarde, quando o vento frio que depois se instalou se for embora novamente.

Abril e Maio são sempre os melhores meses para estar neste terraço. Sorte a nossa.

Ao final do dia e à noite foi tempo de jogar: Uno primeiro, Scategories depois. E um episódio do Castle antes de ir dormir, que apesar de ser uma série policial, onde há sempre um homicídio mais ou menos macabro, é sempre num tom bem-disposto e divertido.

Lembrei-me, entretanto, que podemos estar afastados, mas temos de continuar juntos e eu preciso de saber que os "meus" estão bem. Precisamos todos. Sabemos que os períodos de isolamento são tremendamente perigosos para o ser humano, afinal, somos um animal social e é preciso garantir que mantemos a sanidade mental.

Criei, por isso, um novo grupo no Facebook, "Amor em Tempos de Guerra", um Gloriosos Malucos dos tempos modernos. Será mais fácil saber uns dos outros, partilhar palhaçadas, animarmo-nos, sentirmo-nos menos sozinhos. E, se a coisa apertar para alguém, pedir ajuda, partilhar o que se tiver. Escusado será dizer que o grupo tem estado uma animação!

O Domingo passou-se com algumas arrumações adiadas há meses: os armários da casa de banho (quanta porcaria somos capazes de guardar!), passar a ferro, tratar da roupa, ver filmes.

Penso muito nas pessoas que estão sozinhas e tive este fim de semana uma angústia acrescida com a minha amiga Inês. Operada na 5ª feira a um mioma, não teve direito a visitas estes dias todos. Para melhorar a situação, a mãe da Inês teve um problema de saúde na 2ª feira e está internada desde então. Sem visitas. O Pai está sozinho.
Sinto-me no meio disto, uma privilegiada.
A Inês devia ter saído ontem do hospital, mas como tinha febre, ficou. Teve alta hoje de manhã e fui buscá-la e levá-la a casa.

As ruas têm mais pessoas do que eu imaginei. Muitos cafés ainda abertos, muitas filas à porta das farmácias, que neste momento já não se entra no espaço, o atendimento é feito "ao postigo".

O nosso plano é sair apenas para ir ao supermercado. Apenas isso. Para nós e para quem precise.

Nunca imaginei que um dia viveria algo semelhante a isto. E, no entanto, cá estou.
Sim, a humanidade já passou por muitas epidemias, por muitas guerras e de uma maneira ou outra sobreviveu, reergueu-se. Mas isso foi a "humanidade", não fomos "nós".

Um dia seremos apenas números numa encicliopédia. Seremos um momento da história, onde mais uma vez será referida a capacidade que o ser humano tem em se ultrapassar.
O que os livros não dizem, nem podem dizer, é o preço que cada indivíduo tem de pagar para que isso seja possível.

O que vivemos hoje, é uma guerra.
Uma guerra onde não rebentam bombas, nem se disparam tiros, mas onde morrem pessoas.
Uma guerra onde não há gritos de desespero, só o silêncio do isolamento.
Uma guerra onde a distância nos fortalece. (E, infelizmente, há quem ainda não tenha percebido isso).
Estamos em guerra. E o inimigo somos nós.

Mas não é de desgraças nem de pessimismo que se farão estes dias. No way!

Decidimos que temos de manter rotinas e princípios. Nada de deitar às tantas e acordar quando se quer, vegetar pelo sofá e ver filmes o dia todo. Nada disso!
Vamos tentar manter as rotinas mais ou menos inalteradas. Deitar até às 23h30. Acordar por volta das 8h30 (e isto já é um grande privilégio em relação à vida normal). Tomar o pequeno-almoço, tomar banho e vestir, fazer a cama.
Tenciono, pormenor importante, pôr perfume todos os dias! (bem, talvez não todos os dias que sabe Deus quando é que o vou conseguir comprar um novo outra vez!).

A Daniela tem um grupo online com os colegas e professores para irem fazendo trabalhos e fichas. De qualquer forma está decidido que irá pegar numa matéria todos os dias, ler o que já deu, fazer exercícios do livro de fichas, espreitar a matéria que aí vem.

Eu tenho uma ou outra coisa de trabalho para fazer (que vai escassear cada vez mais), mas tenciono sentar-me todas as manhãs ao computador e escrever. Escrever aqui, relatando esta nova vida e escrevendo a história que tenho há muito para contar. Foi-se a derradeira desculpa: falta de tempo!

O Miguel fará o que entender, ler um livro, ouvir um disco.

Almoçamos por volta da 1h e à tarde vamos dedicar-nos a arrumações e limpezas.

Teremos também que pensar em formas de nos mexer. Aulas de ginástica online, danças no meio da sala, o que for. Vou propor uma reunião com os membros desta equipa para nos organizarmos também com este objectivo. Não será fácil manter o foco, mas será fundamental. Talvez seja desta que eu aprendo a tocar meia dúzia de músicas na guitarra.

Vamos gerindo os dias, tentando manter rotinas. As rotinas são importantes para nos transmitirem um sentimento de segurança e não as podemos descurar.

Por hoje é isto.

Força, Foco e Fé para todos nós!

factos e realidades

Lá para finais de Novembro, começámos a ouvir sobre um novo vírus na China. Um vírus desconhecido, que facilmente se propagava. E a coisa foi crescendo. Chegámos aos milhares de infectados e às centenas de mortes. A China construiu dois novos hospitais em apenas 10 dias, para fazer face ao que se imaginava que vinha por aí.

Mas isso era longe.

Inevitavelmente, o vírus (Coronavírus de seu nome, até então) saltou fronteiras. E começou a chegar perto. Durante algum tempo, Portugal manteve-se estoicamente sem casos, enquanto víamos Itália a galgar números, a somar mortos e contaminados. Aí já o tinham renomeado como Covid-19.

Mas um dia o vírus chegou a Portugal. Soubemo-lo a 2 de março. Sabíamos que assim seria. 
E de um dia para o outro, tudo mudou.
Na semana passada, muitas coisas foram anunciando o seu fecho: bibliotecas, piscinas municipais. E outras o seu cancelamento ou adiamento: concertos, teatros. 
Começou por ser proibida a realização de eventos com mais de 1.000 pessoas em espaços fechados e com mais de 5.000 em espaços abertos. Neste momento, não podem estar mais de 100 pessoas juntas, onde quer que seja.

Na 5ª feira, dia 12, o Governo decidiu finalmente que as escolas estariam fechadas a partir da 2ª feira seguinte (hoje), dia 16 de março. Com esse fecho muitas empresas decidiram fazer o mesmo. Estamos em estado de alerta.

Ontem, Portugal e Espanha decidiram fechar as fronteiras para efeitos de turismo e de lazer. 

Na próxima 4ª feira haverá um Conselho de Estado, onde o Presidente da República poderá decretar Estado de Emergência (caso o Governo aceite) e aí as regras alteram-se. Podem ser tomadas as medidas que as autoridades entenderem, com vista ao "pronto restabelecimento da normalidade". Pode, por exemplo, ser imposta a proibição de circular na via pública sem ser para ir ao supermercado, à farmácia ou trabalhar. Pode ser imposto o fecho de todas as actividades consideradas não essenciais: fábricas, empresas, centros comerciais, que continuam abertos e com pessoas, apesar de tudo.

É nesta situção que está Itália, onde os números não param de subir. É o 2º país do mundo com mais casos. As fronteiras estão fechadas e as pessoas estão fechadas há semanas.
Muitos defendem que 4ª feira será tarde.

Cada dia é uma nova realidade. E adaptação é a palavra de ordem.

O ser humano tem uma real capacidade de se adaptar a todas as circunstâncias. E desta vez não será diferente.

Força, Foco e Fé para todos nós!


roller coaster

Isto ainda agora começou e já é uma montanha russa de emoções. Alterno entre o medo gigante do que vem por aí e a certeza de que isto vai ...